Nikkei adaptou o estilo secular Sukiya para o projeto arquitetônico do restaurante Kinoshita, em São Paulo
O restaurante Kinoshita, em São Paulo, cujo projeto foi desenvolvido por Naoki Otake
Em 2008, Naoki Otake recebeu o 5° Grande Prêmio de Arquitetura Corporativa na categoria ambiente comercial, pelo projeto do restaurante Kinoshita. O desafio do trabalho era oferecer aos clientes um ambiente propício à degustação da legítima culinária japonesa. Otake, que havia passado cinco anos no Japão estudando a tradicional arquitetura do país, assumiu o projeto com a missão de trazer para os dias atuais os ensinamentos absorvidos. Acabou criando uma obra arquitetônica única na capital paulista.
Durante o projeto, Otake buscou a valorização da luz natural e a simplicidade da arquitetura Sukiya, estilo nascido das construções destinadas às cerimônias de chá japonesas no século 17. Também vieram do arquipélago a preferência por materiais naturais e a precisão milimétrica nas medidas. “A proporção exata é muito importante nas construções tradicionais japonesas, pois confere leveza”, explica.
“Para mim, a obra do Kinoshita é emblemática, foi a primeira vez em que pude construir uma obra em cima do que acreditava esteticamente”, conta o arquiteto nikkei, que chegou a morar na matriz da Igreja Tenrikyo, no Japão, e a participar das obras de reconstrução de um templo.
O portifólio de Otake é extenso, contemplando a coordenação dos projetos de arquitetura do Centro de Lançamento de Alcântara e do projeto Sivam, na Amazônia. Ele também foi responsável por moldar as formas de igrejas e badalados restaurantes (o Clos de Tapas, em São Paulo, é o mais recente). Ele revela, em entrevista à Made in Japan, que sua estadia no Japão foi um divisor de águas em sua vida. Confira o bate-papo:
Entrevista - Naoki OtakeO arquiteto Naoki OtakePor que o senhor resolveu ir ao Japão?
Mesmo sendo filho de japoneses, na época da faculdade acabei me distanciando da cultura. Meus colegas perguntavam coisas sobre arquitetura nipônica, e eu ficava triste por não poder ajudá-los, porque não sabia nada sobre isso. Resolvi, então, investir nesse aprendizado e ir ao Japão, depois de cinco anos de formado. Não passei no teste do Mombusho (programa de bolsa de estudos), mas estava determinado a ir. Hospedei-me como interno na matriz da Igreja Tenrikyo, que frequento desde criança, em Wakayama.
Qual o impacto que essa viagem teve em sua carreira?
Ela é o fato mais importante da minha vida. Ajudou na minha formação espiritual e me fez entender minhas origens. Reafirmou os ensinamentos religiosos que recebi na infância - mas que já não dava muito valor - e me fez entender a cultura dos meus ancestrais. Por ter me dado a oportunidade de estudar a arquitetura japonesa tradicional, redefiniu também os rumos da minha profissão.
Para você, qual é o aspecto mais importante da arquitetura?
As pessoas olham muito para o lado do glamour, de fazer projetos bonitos e aparecer em revistas. No entanto, a arquitetura é uma coisa essencial, é moradia, abrigo. A preocupação principal, na realidade, deveria ser esta: uma questão social.
Como surgiu o projeto do Restaurante Kinoshita?
A minha entrada no projeto do Kinoshita foi engraçada. Eu estava estudando paisagismo, e uma das professoras do curso me recomendou para o Marcelo Fernandes, um dos proprietários do Kinoshita. Ele havia comentado com ela sobre a intenção de abrir um restaurante japonês e disse que estava à procura de um projeto que representasse bem a proposta do lugar. O Marcelo já havia estabelecido parceria com um outro arquiteto, que faria este projeto até de graça. Na época, o Marcelo tinha um outro restaurante, o D.O.M., e era sócio do chef Alex Atalla, que o aconselhou a contratar um arquiteto japonês para o projeto. Foi o que ele fez. Me contratou sem nunca ter visto ao menos um trabalho meu.
Quais os principais aspectos do estilo Sukiya que o senhor incorporou ao seu trabalho?
A arquitetura tradicional japonesa, conhecida como Sukiya Kenchiku, originou-se das construções destinadas à cerimônia do chá, que tem aspectos quase religiosos. Essas construções foram levadas para o Japão por mestres budistas e, com a aceitação pela sociedade, foram incorporados pela nobreza. As primeiras casas de chá eram muito humildes. Tinham apenas quatro tatames e uma porta baixa, onde você entrava curvado, quase em reverência. As pessoas que estivessem lá dentro eram consideradas iguais, tanto faz se eram samurais ou agricultores. Ela tem muito desse caráter da simplicidade, de humildade. Esses traços eu incorporei na minha arquitetura. Eu não gosto de traços rebuscados ou extremamente decorativos, que tenham muitos adereços. Meus projetos são limpos em termos de quantidade de linhas, procuro fazer com que a própria arquitetura seja rica sem que sejam necessários o uso de decorativismos.
E como o senhor define seu próprio estilo de arquitetura?
A arquitetura que faço hoje é contemporânea, cujos traços remetem ao estilo Sukiya. Da arquitetura tradicional, eu gosto muito do tipo de material utilizado, das texturas, das proporções. Eu, porém, transporto tudo isso para os dias de hoje, de forma que é possível ser feita na nossa realidade.
Texto: Ricardo Miyajima
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